As dificuldades ligadas ao problema da contradição no conhecimento intervêm muito mais claramente na filosofia como questão sobre a relação da lei dialética da união dos opostos, que atinge a sua identidade com a conhecida exigência lógico-formal da "não contradição", com a lei da "proibição da contradição".
É precisamente desta forma que o problema da contradição no conhecimento e no pensamento se torna concreto no decurso das discussões atuais; é precisamente desta forma que estas discussões nos obrigam a estabelecer as condições da atual luita de ideias. P. V. Kopnin já falou sobre isso. No decurso destas discussões, as diversas opiniões gravitam cada vez mais claramente em torno de dous pólos fundamentais; duas posições cristalizam cada vez mais claramente. Onde se situa a fronteira entre estas posições?
Parece-me que P. V. Kopnin, no seu artigo, não delineou completamente esta fronteira, depois de descrever ambas as posições de tal forma que, segundo uma, qualquer contradição nas determinações do objeto é expressa como um «mal» e, segundo a outra, como uma «bênção». Depois de declarar ambas as posições igualmente unilaterais, P. V. Kopnin vê a resolução concreta do problema na seguinte conclusão: algumas contradições nas determinações são o resultado de negligência lógica e, por isso, inadmissíveis, enquanto outras são expressões legítimas e necessárias das contradições objetivas da realidade material.
Concordo plenamente com a última afirmação do camarada Kopnin. De facto, as contradições nas determinações são diferentes: diferentes na sua origem e na sua relação com o objeto. Há contradições que surgem da negligência subjetiva, de uma imprecisão nos termos que leva à ambiguidade. Tais contradições são inaceitáveis do ponto de vista de qualquer lógica. Estas são as próprias «contradições lógicas» que «não devem existir» numa investigação teórica séria; são contradições intoleráveis. Mas há um outro tipo de contradição que surge no conhecimento não como resultado de negligência ou de erros, mas como resultado do próprio movimento «correto» do pensamento segundo a lógica do objeto. Proibir estas contradições é proibir a dialética, e não apenas a dialética, mas também o próprio desenvolvimento da ciência, pois a ciência sempre e em toda a parte se desenvolveu precisamente pola descoberta de tais contradições nas definições. Isto sempre foi assim, e se aderirmos à dialética, sempre será.
Desta forma, P. V. Kopnin delineou, do meu ponto de vista, a posição da dialética de uma forma bastante correta e concreta. Eu penso o mesmo. E se P. V. Kopnin me atribuiu a opinião de que qualquer contradição é uma «bênção dialética», trata-se simplesmente de um lamentável mal-entendido, do qual, se alguém deve ser responsabilizado, é o editor de «Questões de Filosofia», o camarada Kammari, que riscou o parágrafo do meu artigo onde isso estava claramente declarado.
Creio que só uma pessoa extremamente ingénua ou um sofista provocador com intenções maliciosas poderia chamar «bênção» a qualquer contradição que lhe venha à mente. Ninguém defende tal absurdo; além disso, nunca ninguém confundiria esta insensatez com a posição da dialética dentro da lógica.
No entanto, alguns defensores da lógica formal esforçam-se por atribuir a defesa de tal absurdo aos seus adversários. Segundo a sua visão, claramente expressa durante a nossa aula polo Professor Kolman, admitir sequer um único caso em que a violação da proibição contra a contradição seja justificada conduz necessariamente ao absurdo mencionado. O professor colocou-o da seguinte forma: se considerar a contradição nas determinações admissível, mesmo num único caso, então declara automaticamente qualquer caso de violação da proibição justificado e admissível. A proibição é absoluta ou não é de todo necessária. Assim, deparamo-nos com a alegação de que uma norma lógica possui um significado absoluto, ilimitado por qualquer cousa — uma alegação tremendamente despótica.
Nesta perspetiva, a posição de Kopnin funde-se com a posição a que o próprio P. V. Kopnin chamou «unilateral» e que erradamente me atribuiu. Por outras palavras, o debate centra-se na opinião de que existem contradições e contradições, que existem contradições "lógicas" inaceitáveis, verbais, inventadas, mas que também existem expressões verbais que exprimem corretamente a contradição objetiva da questão.
O Professor Kolman defende, por isso, a visão de que qualquer afirmação que contenha determinações contraditórias é o resultado de «falsidade» e indicativa de imprecisão de pensamento.
É precisamente esta tese que considero falsa. Creio que aceitá-la significa eliminar toda a dialética enquanto tal, a dialética enquanto lógica e teoria do conhecimento. Significa destruir o próprio núcleo, o próprio coração da lógica dialética.
Assim, é impossível concordar com tal posição. É precisamente por isso que se torna necessário entrar em conflito com o Professor Kolman. Salientamos desde já que não estamos a tentar refutar a «semente racional» ou as «boas intenções» do princípio da não contradição, mas apenas as suas pretensões excessivas ao papel de princípio supremo e ilimitado do «pensamento correto».
No meu artigo, e continuo a demonstrá-lo agora, não apresentei a tese de que «qualquer contradição é uma bênção», mas antes uma outra tese: a de que não só pode haver, como há certos casos (e não «apenas um caso») em que a violação da proibição da contradição na sua formulação clássica (Aristóteles-estoicos ou Leibniz-Kant) não é produto da «falsidade» no movimento do pensamento, mas emana necessariamente do próprio movimento correto do pensamento, segundo a lógica do objeto. No artigo, para o bem e para o mal, analisei o caso em que a união de determinações contraditórias apenas permite a «expressão» da natureza objetivamente contraditória do objeto; o caso em que a violação da proibição da contradição na sua forma clássica se revela a forma «correta» e indispensável de expressão, e a «proibição» se torna uma venda anti dialética para o investigador.
Fico muito satisfeito por P. V. Kopnin ter concordado comigo neste ponto. Este é, aliás, o conteúdo fundamental do artigo. Se consegui demonstrar, com base na história da economia política, que a proibição da contradição, nas suas formulações e interpretações históricas, tem sido e continua a ser hostil à dialética, então era isso que era necessário demonstrar.
P. V. Kopnin repreendeu-me polo facto de, embora eu refute corretamente as alegações absolutistas da «proibição» nas suas formulações e interpretações ao longo da história, eu agir como se também estivesse a refutar a própria proibição em geral, ou seja, na sua forma e interpretação racionais, na sua formulação, como disse Pavel Vasilievich, «correta».
Refiro-me única e exclusivamente às formulações e interpretações que têm aparecido na literatura sobre lógica. Todas elas, sem exceção, são, na verdade, variantes da fórmula aristotélica ou kantiana-leibniziana. Não me referia, nem me refiro agora, àquela misteriosa fórmula ou interpretação «correta» em que esta proibição se transformaria de inimiga em aliada da dialética. E não me refiro a isso pola simples razão de que, até à data, nem eu nem ninguém teve acesso a tal interpretação. Eu, como P.V.(1), ficaria muito satisfeito se tal interpretação, que pudesse ser ligada à dialética sem prejuízo desta, fosse finalmente descoberta e divulgada. Mas, por enquanto, ela não existe.
Além disso, considero-me no direito de falar apenas sobre o que ocorreu historicamente e evito falar sobre o que existe unicamente no âmbito das boas intenções. E todas as fórmulas de proibição «que surgiram ao longo da história», sem exceção, são contrárias à dialética. Isso é um facto. Mesmo a própria fórmula de «proibição» a que P. V. recorreu, depois de a considerar a «correta» que se procurava, não está isenta de críticas; tentarei demonstrar isso mais à frente.
A princial falha nas fórmulas propostas para a proibição não reside no facto de criarem obstáculos a contradições «lógicas» inaceitáveis, mas sim na tentativa de as criar. A sua desgraça está em que, em virtude da sua extrema abstração, proíbem, juntamente com as contradições «lógicas», qualquer contradição nas determinações, incluindo a dialética.
De facto, a proibição nesta fórmula correta, como supõe P. V., permite-me exprimir tais «julgamentos» como, por exemplo, «um gato no telhado mia e não mia ao mesmo tempo». Mas, mesmo assim, impede-me de rejeitar esta expressão estúpida «dentro dos limites do sistema de expressões em que é considerada verdadeira».
Não creio que esta fórmula possa ser considerada «correta». Parece-me que se pode chegar a uma conclusão: se as formulações aristotélica e leibniziana-kantiana da «proibição» impedem automaticamente as contradições lógicas (inaceitáveis) nas determinações, juntamente com as expressões que manifestam a unidade dialética dos opostos, então a fórmula de P. V. Kopnin permite as contradições dialéticas juntamente com as inadmissíveis, as «lógicas». Qual é melhor ou pior, não me atrevo a julgar. Coloca-se então uma questão: será possível, em geral, em princípio, que uma fórmula de proibição impeça contradições lógicas, mas não dificulte a expressão de contradições dialéticas?
Por outras palavras, será possível ter uma fórmula que nos permita diferenciar imediatamente, antes e fora de qualquer análise do conhecimento no seu conteúdo material real, a contradição puramente verbal da expressão verbal da contradição real?
Creio que tal fórmula é impossível. Afirmo-a como a tese fundamental do meu argumento: as tentativas de criar uma fórmula mágica que, como teste decisivo, permitisse diferenciar imediatamente as contradições verbais (isto é, «lógicas») da expressão verbal correta da união objetiva dos opostos no conhecimento, antes e fora da análise do conhecimento no seu conteúdo concreto, são inerentemente fúteis e irrealizáveis.
A impossibilidade desta empreitada baseia-se no facto de, devido à sua forma exterior, ou seja, sintático-verbal, a chamada contradição «lógica» ser indistinguível da contradição dialética expressa no discurso.
Analisar o conhecimento de acordo com o seu conteúdo material inteiramente concreto é, de facto, capaz de diferenciar um do outro. Esta é a posição da lógica dialética. Esta é a posição que o Professor Kolman tem vindo a refutar há algum tempo. Do seu ponto de vista, as duas afirmações seguintes são igualmente «incorretas»: O gato tem simultaneamente e não tem cauda, e A flecha em voo está simultaneamente no mesmo lugar e não está no mesmo lugar.
Se exprimirmos o que estas duas «expressões» têm em comum numa formulação abstrata, esta característica «comum» soará assim: «A é B e não é B». Creio ser desnecessário demonstrar que estas duas expressões são indistinguíveis na sua forma sintático-verbal e que têm origens completamente diferentes.
A primeira é a negligência ou premeditação de arbitrariedade sofística. A segunda é a tese que ocupa as mentes dos filósofos e dos lógicos há dous mil anos.
Em todo o caso, nem Aristóteles, nem Hegel, nem Engels, nem Lenine consideraram alguma vez isto meramente o infeliz produto de um mal-entendido verbal. Mesmo B. Russell vê nesta tese uma certa dificuldade que se mantém inteiramente válida: o facto de a teoria de Zenão violar claramente o princípio da não contradição, da mesma forma que o Professor Kolman assume este princípio e polo qual se esforçou por interpretar o paradoxo da flecha de uma forma que possa ser conciliada com a proibição.
Se a posição do Professor Kolman se baseia no facto de não existir, nem poder existir, um único caso em que a violação da proibição da contradição ocorra com absoluta necessidade a partir do próprio movimento «correto» do pensamento, então a seta aponta precisamente para «esse» caso (embora não seja o único, o que discutiremos mais adiante).
O Professor Kolman refutou este «caso»? Na minha opinião, demonstrou precisamente o contrário do que pretendia demonstrar. Apenas evidenciou a falência de mais uma tentativa da lógica formal para lidar com uma dificuldade que não é formal na sua essência. Para salvar o princípio da não contradição, o Professor Kolman é obrigado a violá-lo duas vezes. Observe atentamente: considera que a antinomia desaparece assim que o «indeterminado» termo «é encontrado» é substituído por dous termos «definidos», «encontra-se» e «passa». Após esta operação, o paradoxo de Zenão mantém-se como a composição das seguintes duas expressões:
1. «A flecha em voo jaz». – Clara violação da proibição da contradição em nome da salvação.
2. «A flecha em voo passa». – Segunda violação, dado que este julgamento é incompatível com o primeiro, de acordo com esta proibição.
Assim, a proibição é violada duas vezes. E o que significa? Nada. Simplesmente transfere toda a dificuldade de um termo para outro, das palavras «encontra-se» para a palavra «passa». Pois «passa» significa, novamente, que a flecha é simultaneamente encontrada e não encontrada no mesmo local...
Se esta «resolução» for considerada a transição da metafísica para a dialética neste ponto traiçoeiro em que o próprio Engels pecou ao ser hegeliano, então o que consideramos como os meios semântico-verbais de resolução das contradições?!
O outro artifício verbal do Professor Kolman, a adição da palavrinha «relativamente» («A flecha em voo permanece relativamente no mesmo lugar e passa relativamente para outro»), não ajudará. Com este disfarce verbal, o paradoxo de Zenão é meramente mascarado; a sua perspicácia é atenuada por uma expressão verbal rebuscada e nada mais. A antinomia é preservada, mas deixa de ser evidente, desperdiçando a sagacidade que Zenão imprimiu à expressão, e em vez de uma solução genuína, oferece-se uma ilusão — a aparência de uma solução.
Creio que o paradoxo de Zenão não pode ser resolvido verbalmente, simplesmente substituindo certas palavras por outras. Creio que a verdadeira solução para esta contradição dialética nas determinações será um dia encontrada na física teórica e experimental, no âmbito do estudo do tempo e do espaço.
É assim que se encontrará a solução concreta. Por ora, a dificuldade manifesta-se como uma antinomia. E esta antinomia (precisamente graças ao engenho que o Professor Kolman se esforça por neutralizar) demonstra ao físico que existe aqui uma dificuldade genuína, à espera de uma resolução real, e não verbal.
Perguntemo-nos: qual é o verdadeiro propósito das nossas discussões? Será possível que tudo isto não passe de exercícios escolásticos?
Ou será que existe um debate muito mais importante escondido por detrás da discussão sobre a flecha?
Creio que a verdadeira controvérsia reside em algo mais profundo. A questão é que a discussão sobre a contradição e a proibição da contradição na lógica surge apenas porque o verdadeiro conhecimento, ao longo dos séculos até aos dias de hoje (e, se confiarmos na dialética, continuará a fazê-lo), se desenvolve constantemente através de uma reprodução e resolução contínuas das contradições nas determinações.
É evidente que não estamos aqui perante meras contradições verbais, que sempre ocorrem e continuarão a ocorrer enquanto os seres humanos não forem imunes aos pecados da negligência e da imprecisão no uso dos termos. Falamos aqui de contradições nas determinações que surgem necessariamente do movimento de pensamento mais «correto» possível, baseado na lógica do objeto.
Se considerarmos estas contradições, e não apenas as verbais, então devemos responder à questão colocada no início da minha apresentação da seguinte forma: a contradição nas determinações sempre foi, é e será a força motriz do desenvolvimento teórico, a forma como o problema não resolvido é sempre reconhecido. Neste sentido, a contradição é o «motor do desenvolvimento» da teoria. Proibi-la é proibir o próprio avanço da teoria. Felizmente, isto não depende nem do Professor Kolman nem da posição partilhada por alguns lógicos.
Pode afirmar-se como um facto, explicado apenas pola dialética (hegeliana e, mais tarde, marxista-leninista), que qualquer problema científico-teórico sério e não inventado é sempre reconhecido como uma contradição nas determinações teóricas, sob a forma de uma contradição dentro do sistema conceptual existente.
Um exemplo: a crise da física na viragem do século XIX para o século XX.
Quando os factos, expressos através do sistema existente de determinações teóricas, adquirem subitamente um aspeto paradoxal, este sistema depara-se com um problema que exige uma solução concreta numa teoria nova e superior.
É precisamente aqui, neste ponto, que a diferença entre lógica metafísica e lógica dialética se torna crucial.
A questão é que a metafísica e a dialética, neste ponto, oferecem dous métodos completamente opostos para resolver as contradições.
Perante este facto, a metafísica procura sempre demonstrar que a contradição em que o pensamento persiste é produto de negligência subjetiva, resultante do uso incorreto de termos, nomes, expressões e assim por diante.
Se o pensamento fica preso numa contradição, não pode prosseguir. É preciso «recuar», analisar o movimento de pensamento precedente e encontrar o erro que resultou na contradição. Até que este erro seja revelado e corrigido através de uma análise puramente formal, não se pode avançar. A contradição é interpretada como uma barreira para além da qual o pensamento não tem o direito de dar um único passo.
Como é que a lógica dialética exige agir neste caso?
Exige, acima de tudo, levar a contradição que surgiu à sua expressão completa, precisa e clara, ao seu limite antinómico.
Para a dialética, a contradição nas determinações não é uma barreira intransponível; polo contrário, é o trampolim a partir do qual o pensamento deve avançar na investigação teórica e experimental concreta do objeto. A contradição nas determinações é a própria forma lógica em que o problema se constitui, a questão sujeita à resolução nos factos.
(É de notar, entre parênteses, que a dialética nunca proíbe, perante uma contradição, regressar e analisar a etapa anterior do processo de pensamento para verificar se encontramos uma contradição verbal. Regressar e verificar o curso do pensamento nunca é prejudicial. O que é prejudicial é a ideia de que esta verificação deve dissipar, liquidar e eliminar a contradição no pensamento a todo o custo.)
Quando a contradição é levada a uma tensão clara e completa, a lógica dialética recomenda seguir em frente, avançar, investigar o objeto cada vez mais a fundo com o objetivo de encontrar os meios materiais reais e concretos polos quais a contradição que surgiu é resolvida através de um movimento autêntico do objeto.
É exatamente assim que Karl Marx procede em «O Capital». Tentei discutir isto no meu artigo «Questões de Filosofia», o mesmo artigo com o qual o Professor Kolman se envolveu em polémicas.
O Professor Kolman aconselha a proceder exatamente de forma oposta. Mais concretamente, uma vez que encontramos uma contradição nas determinações, somos obrigados a recuar, a fim de descobrir a todo o custo a ligação incorreta nos juízos precedentes e, em seguida, eliminá-la substituindo os termos e expressões «indefinidos» por outros «definidos». A posição do Professor Kolman não nos permite avançar no caminho da investigação teórica e experimental enquanto persistir a contradição.
De facto (e o Professor Kolman demonstrou-o brilhantemente com a sua análise da «flecha»), desta forma a contradição não é resolvida, muito menos «eliminada». Na melhor das hipóteses, é ocultada, disfarçada por um artifício verbal. Sob esta camuflagem verbal, é polo menos preservada em toda a sua tensão, mas para a pessoa inexperiente, deixa de ser evidente. Cria-se apenas a aparência de que já não há contradição e, portanto, nada com que se preocupar. E é precisamente a isto que Hegel chamou apropriadamente «gentileza filisteia para com as cousas».
Neste ponto, Marx, Engels e Lenine seguem Hegel: a contradição, uma vez identificada, exige um reconhecimento claro e preciso, e depois uma solução igualmente clara e precisa através de uma análise subsequente dos factos e dos dados na prática, na experimentação; factos que demonstram o método material-sensível para a resolução da referida contradição.
Entre outras cousas, o Professor Kolman consola-se com a noção de que a «flecha» é o «único precedente», a «exceção hegeliana» às regras da lógica formal que foi erradamente admitida por Engels.
Eis um exemplo do mesmo tipo: «É uma contradição que um corpo caia constantemente sobre outro e que, com igual constância, se afaste dele. A elipse é uma das formas de movimento em que esta contradição se realiza e, ao mesmo tempo, se resolve.»
Já não se trata de Engels, mas de Marx. Este é mais um precedente, embora não o último, da «violação» da proibição da contradição lógico-formal.
Pode ainda acrescentar-se: «O processo de troca de mercadorias envolve relações contraditórias e mutuamente exclusivas. O desenvolvimento da mercadoria não elimina estas contradições, mas antes engendra a forma como elas podem ser expressas. Este é, em geral, o método polo qual as contradições reais são resolvidas.» Permitamos que o Professor Kolman, enquanto especialista em questões filosóficas da física e da matemática, se debruce não só sobre a «flecha», mas também sobre a elipse. De acordo com a contradição lógico-formal, a definição teórico-material da elipse (enquanto forma descrita como um corpo que simultaneamente cai e se afasta em relação a outro corpo, ou seja, «na mesma relação») não faz sentido.
Segundo a dialética, este «absurdo» concretiza-se hoje no movimento de um satélite artificial. Este «absurdo» pode ser facilmente compreendido por qualquer defensor da lógica formal que procure o sentido absoluto da norma lógica universal.
Também aqui se pode dizer, é claro, que Marx (bem como Engels) «segue os passos de Hegel», «flerta com o método de expressão hegeliano», etc. Mas então os defensores da posição defendida polo Professor Kolman deveriam acertar contas com o próprio Hegel se realmente o consideram a fonte e a origem de todos os males.
De facto, o que foi repetidamente atestado polos clássicos, sobretudo por Lenine nos seus «Cadernos Filosóficos», é que o marxismo, ao abordar o problema da contradição e o seu papel no desenvolvimento real e lógico, remete direta e imediatamente para Hegel, desenvolvendo, com base no materialismo, as sementes racionais da sua lógica.
Aqueles que subscrevem a posição defendida polo Professor Kolman não se deram ao trabalho de resolver as suas críticas à dialética hegeliana; simplesmente preferem denegrir Hegel. Como resultado, não só deixam de progredir de Hegel para Marx, como permanecem presos a posições pré-hegelianas, ou mais precisamente, kantianas.
Para Kant, a contradição é sinónimo de absurdo; é a «falsidade» no processo de ligação de conceitos e juízos, a forma que destrói o conhecimento. O próprio Kant conhece e admite um método para resolver as contradições: o método de separar as teses contrárias «em duas relações diferentes». Esta posição metafísica clássica sobre a questão da contradição é ainda hoje reproduzida em numerosos manuais de lógica formal. Estes manuais tomam a formulação da proibição numa das suas versões (aristotélica ou leibniziana-kantiana) e tentam ligá-la artificialmente a afirmações materialistas.
Apenas com frases. Porque ligar a «proibição» aos princípios do materialismo dialético e, assim, revelar a sua «semente racional» só é possível através da análise crítica dos princípios sobre os quais a referida proibição, em geral, foi desenvolvida como tal.
Portanto, a discussão surge apenas porque os colegas que tentam encontrar a «semente racional» da proibição da contradição ainda não acertaram seriamente as contas com as premissas filosóficas sob as quais a «não contradição» é a norma incondicional do «pensamento correto».
Um exemplo brilhante de como a contradição nas determinações surge não como resultado de «erros», mas antes do próprio movimento «correto» do pensamento, e como, portanto, encontra a sua solução na investigação subsequente de factos materiais e práticos, é «O Capital» de Marx. Isto é algo mais grave do que a «flecha», embora esta flecha já atinja diretamente o cerne da posição do Professor Kolman.
Marx, como é sabido, analisa a esfera da circulação monetária e de mercadorias como uma esfera que aparece como premissa histórica e «lógica» para o surgimento da mais-valia. Esta análise conduz a uma contradição e, além disso, a uma contradição «ao mesmo tempo e na mesma relação». O problema, como se sabe, é formulado por Marx da seguinte maneira: como é possível o surgimento da mais-valia com base na lei do valor, se a mais-valia contém em si mesma uma determinação que contradiz diretamente a lei do valor?
Como é que uma realidade dá origem à sua própria contradição?
«Não importa como olhemos para ele, o resultado é o mesmo. Se forem trocados bens equivalentes, não se cria mais-valia, e se forem trocados bens não equivalentes, também não se cria mais-valia» (O Capital, Volume Um, Capítulo 4).
E, no entanto, surge mais-valia…
Dous factos se contradizem. Naturalmente, as definições teóricas destes dous factos também se contradizem. O próprio Professor Kolman admite que dous factos se podem contradizer, mas as suas definições teóricas não.
Como procede Marx neste caso? Onde é que ele procura a solução para a contradição que surgiu? Não na correção de «erros» negligenciados durante a análise da esfera monetário-mercantil, mas na investigação concreta mais aprofundada do objeto, do método polo qual o próprio objeto, no seu desenvolvimento, permite e realiza essa contradição.
Marx afirma que a contradição será resolvida se, dentro dos limites da própria esfera monetário-mercantil, pudermos descobrir a mercadoria cujo valor de uso consiste em aumentar o valor; a mercadoria cujo consumo é idêntico à produção de novo valor. Existe essa mercadoria? Existe esta realidade que corresponde a uma determinação que contém em si uma contradição? Se existir, o problema estará resolvido.
Assim, a contradição encaminha o pensamento para a investigação, apresentando-lhe um problema que pode de facto resolver. E o problema formulado como contradição resolve-se não por métodos formais, não pola substituição de termos «indefinidos» por termos «definidos», mas pola descoberta na realidade empírica do facto específico que permite ao desenvolvimento efetivo produzir e viabilizar a contradição previamente revelada polo pensamento.
A contradição promove a lógica dialética através do avanço do pensamento do abstrato para o concreto.
A contradição obriga-nos a regredir à lógica formal, à verificação e reverificação das abstrações existentes. Este caminho não leva ao concreto; conduz apenas à modificação verbal de todas estas abstrações.
É exatamente aí que reside a diferença. E esta não é uma discussão escolástica.
Para demonstrar que a posição do Professor Kolman não é meramente lógica, ou seja, não se limita a discussões dentro do campo da lógica, vale a pena recordar um facto curioso.
No ano passado, o Professor Kolman tentou utilizar os seus princípios lógicos para analisar um importante debate nas ciências naturais. A questão dizia respeito ao conflito entre duas cosmologias. Uma posição baseia-se na tese da infinitude do universo; a outra, na representação de que o universo é finito.
A infinitude, como a filosofia há muito reconhece, contém inerentemente uma contradição. A verdadeira contradição contida na infinitude também se expressa naturalmente nas suas definições teóricas. Por esta razão, a cosmologia depara-se constantemente com contradições cuja resolução é a sua tarefa. O Professor Kolman aconselhou os cosmólogos a livrarem-se destas contradições de uma vez por todas, excluindo o conceito de infinito. A sua justificação foi bastante original: o materialismo dialético nada tem a ver com o reconhecimento da infinitude do universo.
É perfeitamente possível pensar que o universo é finito.
Portanto, ambas as conceições (tanto a que se baseia na tese do infinito como a que considera o universo finito), segundo o Professor Kolman, são igualmente legítimas e têm o mesmo direito de serem julgadas pola filosofia dialético-materialista. Ambas podem existir e desenvolver-se. Derivarão sempre de princípios mutuamente incompatíveis, e o desenvolvimento da cosmologia está para sempre condenado ao dualismo, ao movimento segundo duas linhas paralelas que nunca se cruzam. O debate entre elas nunca poderá ser resolvido definitivamente porque é essencialmente irresolúvel.
Isto é muito semelhante à resolução do problema cosmológico que se encontra na «Crítica da Razão Pura». Haverá sempre uma teoria que considera os limites da divisibilidade, e ao lado dela haverá sempre o seu oposto, aquela que assume que não há limite para a divisibilidade. E isto ocorrerá sempre porque a razão pode sempre escolher entre dous pontos de vista mutuamente exclusivos, embora igualmente legítimos. Mas este é apenas o «ponto de vista» do sujeito, e nada mais.
Portanto, analisar o objeto a partir do ponto de vista do próprio objeto é já uma afirmação transcendental da razão acrítica…(2)
Em Kant, isto está organicamente ligado à sua compreensão da contradição no conhecimento. O professor Kolman, quer queira quer não, acaba por ser forçado a submeter-se a essa mesma lógica. Mas não é essa a lógica do marxismo.
Aqueles que apoiam o ponto de vista do professor Kolman recorrem geralmente às práticas contemporâneas de fabrico de instrumentos, aos princípios da computação e à cibernética, que não podem dar um único passo sem respeitar o princípio da «não contradição». Todo este campo da tecnologia contemporânea será impossível se a sua lógica se basear na resolução de contradições em definições, em vez de as proibir.
Não vamos discutir com eles sobre este ponto, apenas colocaremos uma questão: e porque não supor que o cérebro humano vivo, com o seu pensamento, difere do modelo mecânico precisamente porque não só «suporta» a tensão da contradição interna, como encontra nela o estímulo para o seu desenvolvimento, o movimento segundo a lógica concreta do objeto concreto, algo que a máquina mais aperfeiçoada não é capaz de fazer?
O Professor Kolman, na minha opinião, deveria abandonar a ilusão de que a «lógica» subjacente às operações computacionais é a «lógica» correspondente ao desenvolvimento vivo do conhecimento humano. Como disciplina técnica específica, esta «lógica» é legítima e necessária. Mas não nos devemos deixar levar; não devemos transformar os seus princípios em princípios da lógica dialética. São precisamente estas pretensões excessivas que fazem com que a lógica formal, nas suas variantes mais recentes, entre em conflito com a dialética. E a dialética não pode permitir isso.
Intervenção final.
Não pretendo refutar as objeções levantadas polo camarada Zinoviev a propósito da minha apresentação. Polo que percebi, o camarada Zinoviev está a referir-se a outros assuntos, pois não encontrei qualquer refutação às minhas teses.
Gostaria de abordar outro assunto e esclarecer um mal-entendido em que, receio, incorreu não só o camarada Kvachajia, mas também outros. A questão é que o camarada Kvachajia misturou a minha posição com a de Kopnin, criando uma fórmula que concilia a minha posição com a dele. E acredito que por detrás disso se esconde uma profunda mentira.
.O camarada Kvachajia vê a necessidade de contradições no conhecimento na seguinte circunstância: o conhecimento é sempre limitado e o objeto é infinito. Portanto, a contradição sinaliza sempre a falta de união entre o conhecimento e o objeto, e não a sua convergência. Nesta interpretação, a contradição permanece, polo menos, um indicador da falsidade do conhecimento, da sua divergência (ainda que historicamente condicionada) em relação ao objeto.
Em termos estritos, é precisamente isto que Kant afirma na «Crítica da Razão Pura». O seu ponto de partida é a incomensurabilidade de qualquer experiência possível com a cousa-em-si, com o ideal do conhecimento. Assim, por exemplo, nunca deveríamos esperar atingir o limite da divisão das cousas, «o indivisível». Acontece sempre que esse limite se encontra mais à frente. Mas, como «princípio regulador», devemos admitir a representação da «indivisibilidade», pois, de contrário, privamo-nos do ideal e da meta para a qual o conhecimento eternamente se esforça.
Assim, tanto a «divisibilidade» como a «indivisibilidade» são aceites. A primeira corresponde a qualquer experiência possível, e a segunda ao «ideal» inatingível e nunca alcançado.
Esta é a forma típica de resolver uma antinomia, separando a tese e a antítese «em duas relações diferentes». Mas isso também não é dialética. V. F. Asmus já o demonstrou corretamente no seu livro «A Dialética de Kant».
Segundo Marx, a contradição não surge da incomensurabilidade essencial entre o conhecimento e o objeto, mas antes como resultado do movimento rigoroso e correto do pensamento baseado na lógica do objeto. Portanto, a contradição é o reflexo correto do conceito de contradição objetiva, e não um indicador de uma «divergência» entre o conhecimento e o objeto, como acontece em Kant. Assim, a contradição já não se resolve por «relações diferentes». Exige-se aqui uma abordagem diferente, não a recomendada polo camarada Kvachajia.
Se o próprio camarada Kvachajia inventou este meio de compreender as antinomias que descreveu, então devemos ser justos para com ele: descobriu o que Kant já tinha descoberto. Se foi capaz de o fazer, então, esperemos, conseguirá eventualmente passar dessa posição para uma superior, para a hegeliana, e, por fim, chegará mesmo a Marx.
A doutrina de Kant não pode ser confundida com a doutrina de Marx. São cousas diferentes.