Entrevista a Jean Baptiste Malakoff

Ngo Van Xuyet

28 de fevereiro de 2002


Origem: entrevista concedida a Jean Baptiste Malakoff em 28 de fevereiro de 2002, em Paris.

Fonte para a tradução: seção em espanhol do Arquivo Marxista na Internet.

Tradução: Rick Magalhães de Sá.

HTML: João Batalha.

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Quais foram as relações dos grupos trotskistas indochinos com a IV Internacional e com Trotsky quando estava vivo? Quais relações haviam se estabelecido com os trotskistas franceses?

NGO VAN — Os laços com os trotskistas franceses foram muito reduzidos. A declaração dos oposicionistas indochineses emanava, na verdade, dos trotskistas vietnamitas de Paris. Tratava-se de um grupo de estudantes ligados à oposição de esquerda na capital, motivada pela sua oposição ao Partido Comunista da Indochina (PCI). Os trotskistas lutam pela revolução permanente, isto é, pela independência combinada com a emancipação dos operários e camponeses, com o apoio do movimento proletário internacional. Os stalinistas são a favor da ditadura democrática de operários e camponeses e, acima de tudo, da independência; a revolução socialista vem em uma segunda etapa, em uma época indeterminada. As condições de militância clandestina fazem quase impossíveis as relações com os trotskistas da França. Foi somente em 1939 que La Lutte enviou uma carta a Coyoacán. Entre essas duas datas, as relações são quase inexistentes. A revolução permanente, por exemplo, nunca será trazida ao indochinês. Somente a burguesia local possui uma imprensa no idioma vietnamita. A revista teórica do grupo Outubro (Thang Muoi) tentará, contrariamente, aplicar a teoria da revolução permanente à realidade indochinesa na língua vernácula, na revista Thang Muoi, que surgiu legalmente entre 1938 e 1939.

Qual a sua avaliação da política dos grupos trotskistas com o PCI, especialmente durante o período de frente única dentro da La Lutte?

NGO VAN — Minha avaliação é mais negativa do que positiva. A experiência dá vantagens aos stalinistas, que ganham politicamente através de suas publicações das teses da Terceira Internacional (os escritos de Marcel Cachin, por exemplo), enquanto que os trotskistas, em virtude do acordo com o PCI, não têm direito de disseminar suas ideias. No entanto, é preciso dizer que é graças a essa colaboração, e sobretudo à legalidade que a La Lutte desfrutava, que os trotskistas conseguiram se estabelecer, principalmente no mundo operário de Saigon - Cholon. É por esta mesma via indireta que Ta Thu Thau ganhou uma imensa popularidade.

Não obstante, La Lutte, como divulgação escrita, foi publicado apenas em francês. Somente em 1938 [após a queda dos stalinistas, Nota do Editor] a publicação em vietnamita seria autorizada. Em francês, o jornal era lido por uma camada restrita de pessoas cultas e instruídas. Por isso, o trabalho de explicação e tradução entre os operários era essencial. A influência da La Lutte em todo o proletariado de Saigon era bastante intensa.

Poderia nos dar exemplos do papel ou da influência dos trotskistas dentro do movimento operário e na organização dos sindicatos? Que continuidade existe entre a influência política dos trotskistas antes da guerra e durante o ano de 1945, sobretudo logo após o desmantelamento do movimento durante a guerra e com a ocupação japonesa?

NGO VAN — Em maio de 1937, a influência dos trotskistas era categórica na constituição da Federação Sindical Operária clandestina, desmantelada pela polícia colonial. Por outro lado, os stalinistas estavam contra a formação de sindicatos e defendiam a formação de associações, devido ao seu apoio à frente popular de Paris. Para os indígenas, o direito sindical era negado até o fim. Uma vez declarada a Segunda Guerra Mundial, o governo colonial dissolveu todas as organizações políticas e prendeu quase todos os militantes operários e outros militantes, enviando-os para campos de trabalho. Ta Thu Thau só saiu da prisão em novembro de 1944. Portanto, o movimento operário esteve ausente durante o período de 1940 a 1945.

O único exemplo de continuidade militante foi a formação, em setembro de 1945, da militância operária dos trabalhadores e das oficinas de bondes em Saigon. Se trata de uma das antigas bases da Liga Comunista Internacional (LCI). Nas outras fábricas, os operários foram recrutados pelos stalinistas, que tomaram o poder. Quando a rendição japonesa aconteceu, em meados de agosto de 1945, frente ao vazio político, os trotskistas reativaram suas antigas antenas. Os stalinistas desfrutavam de uma base muito importante no campesinato e eram os únicos que podiam trabalhar na ilegalidade durante o conflito, o que lhes permitiu formar um governo stalinista de fato, e se dedicaram a um massacre sistemático de trotskistas em setembro de 1945.

Poderia nos falar dos movimentos que surgiram no ano de 1945?

NGO VAN — A princípio, tratavam-se de movimentos espontâneos e, por conta disso, não eram guiados por ninguém. Não se tratavam, por exemplo, de fenômenos nascidos de rupturas entre a base do PCI e sua direção. Os movimentos de 1945 representavam a espontaneidade dos operários e dos camponeses para que se organizassem, para enfrentar, entre outras coisas, as tarefas cotidianas, como resultado do vazio de poder. Quando os camponeses começaram, no delta do Mekong, a confiscar as terras e os arrozais dos proprietários e redistribui-las, foram imediatamente reprimidos pelo partido de Ho Chi Minh. No entanto, é preciso dizer que na comuna de Hongai-Campha, formada espontaneamente pelos mineiros em agosto de 1945, eles se mostraram receptivos às políticas trotskistas do Partido Socialista Operário do Vietnã do Norte, bem como às conversas proferidas por Ta Thu Thau em maio de 1945, quando esteve nessa região.

O que você responde a quem afirma que, em 1945, Ho Chi Minh rompeu efetivamente com o stalinismo, assim como Tito, e lutou contra o imperialismo?

NGO VAN — É uma idiotice. Ho Chi Minh continuou fiel ao stalinismo e nunca se opôs à política do Kremlin. O processo vietnamita era muito pouco conhecido na França. Quando eu cheguei aqui, em 1948, pude constatar que os trotskistas não estavam nada informados. Gritavam “Viva Ho Chi Minh!”. É mais um exemplo da debilidade dos laços entre os trotskistas franceses e indochineses, desde a década de 1930; a ruptura foi, inclusive, total durante o curso do conflito. Em 1945 e 1946, os trotskistas vietnamitas foram liquidados pelos Viet Minh, o partido de Ho Chi Minh. Em 1951, os últimos trotskistas foram assassinados no sul do país.

Voltei ao Vietnã pela primeira vez em 1997. Consegui restabelecer contato com alguns opositores dentro do Partido Comunista Vietnamita, e também com poetas e escritores perseguidos no decorrer dos anos 1950. Mas, no Vietnã, Ho Chi Minh construiu um novo regime de exploração. A burocracia dominante é uma nova burguesia. Colabora com financiadores estrangeiros, de Taiwan e de Bangkok, da Coreia e de Hong Kong, para explorar o campesinato e o proletariado. É um Estado policial em que a oposição é impossível. É um país com uma etiqueta socialista, mas onde não há socialismo de forma alguma. Tenho uma desconfiança absoluta de tudo o que possa se tornar um aparato. Um Estado nunca definha, é uma ilusão. Permanece sempre intacto, com suas prisões, sua polícia, seus exércitos, seus funcionários. Uma vez constituído, nunca definha. Por isso penso, embora seja apenas uma suposição, que a república dos Conselhos poderia ser uma forma transitória para a supressão do Estado.

Seus esforços para divulgar a história do processo vietnamita foram cruciais. Quão importante você acha que seu conhecimento pode ser para as novas gerações de jovens revolucionários?

NGO VAN — Não tenho pretensões. Sinto o dever da memória em relação aos camaradas caídos. Por isso, faz parte da minha experiência pessoal. Em Londres, na ocasião do lançamento de um estudo que eu havia feito sobre o momento da luta pela construção da IV Internacional no Vietnã, eu disse aos jovens presentes que Trotsky havia pensado as circunstâncias da Revolução russa em condições de um país atrasado. Eram as mesmas condições, respeitando as proporções, da Indochina sob dominação colonial francesa. É a partir do estudo da Revolução permanente que temos que devemos pensar o que fazer. Hoje, vivemos em outro mundo, onde a sociedade evoluiu. Devemos nos apoiar nos ombros dos revolucionários do passado para olhar mais adiante e pensar nossas ações por nós mesmos.